Na antiguidade grega, o conhecimento anatômico era primitivo. A ideia da vida residia no hálito, transmissor da atividade vital e das paixões. A sede da vida seria o diafragma. Nesta fase da medicina, apesar dela ser praticada por peritos que eram pagos pelo seu trabalho, sua prática possuía certo cunho mágico e sacerdotal. Todos os deuses possuíam aptidões curativas ou eram capazes de provocar doenças, embora alguns poderes particulares fossem atribuídos a alguns deles.

Elevando-se acima da medicina sacerdotal e empírica, nesta época, destacou-se Hipócrates, que se impôs como a personalidade médica mais importante e completa da antiguidade, cerca de cinco séculos antes de Cristo. Seu apurado senso de observação, aliado à profundidade de um raciocínio claro e lógico e elevado conceito ético, compensavam em grande parte a ausência quase total de conhecimento anatômico.

A palavra diagnóstico tem origem em Hipócrates, que foi o primeiro a utilizá-la. Ela deriva da junção do prefixo di(a) – através de, ou por meio de – , e do elemento de composição *gno, presente no latim e no grego, cujo significado seria conhecer. A etimologia francesa data de 1759 (diagnostic/diagnostique), que deriva do adjetivo grego diagnostikós, capaz de distinguir, de discernir.

Na língua espanhola a entrada do vocábulo é datada de 1843, diagnóstico. Portanto, quando falamos em diagnóstico, estamos falando de discernimento, da ação e da faculdade de discernir. No tempo de Hipócrates, para realizar suas hipóteses diagnósticas, o médico só dispunha de seus sentidos para examinar o doente. Ensinava Hipócrates que o exame clínico devia se iniciar pelas coisas mais importantes e dever-se-ia compará-las com o estado de saúde. Deveria se observar
tudo o que se podia reconhecer pelos meios de conhecimento, incluindo a respiração, o suor, as fezes e a urina. Já era recomendada na época a auscultação, auxiliada pela percussão do tórax. Os estertores de grandes bolhas e o ranger de couro dos casos de pleurite eram reconhecidos.

A sucussão torácica servia para o diagnóstico do empiema. A respiração de Cheyne-Stokes era descrita como a “de uma pessoa que está concentrando o pensamento.” Mesmo confundindo as artérias com a traqueia e os brônquios, pelo fato das primeiras possuírem um conteúdo aéreo após a morte, as descrições desta época das doenças respiratórias foram interessantes, como a da pneumonia, do empiema, da pleurite e dos abscessos. Destaque especial à tuberculose, chamada por tísica (do grego phthísis, consumpção), cujos sintomas foram descritos de forma minuciosa e magistral.

Foi somente após o período medieval, época em que a fé católica sobrepujou o pensamento clássico, que o renascimento trouxe novas luzes sobre a ciência com conseqüências óbvias na medicina. No século XVIII, o exame físico foi aperfeiçoado com a percussão do tórax, introduzida por Auenbrugger e divulgada na França por Corvisart, médico de Napoleão. Nos séculos seguintes, houve a descrição de sintomas e sinais característicos de muitas doenças e a idealização de manobras e técnicas especiais de exame, muitos dos quais passaram a ser conhecidos pelos nomes de seus descobridores, destacando-se na área pneumológica Ramond, Litten, Lasègue, Ruault, Signorelli, Trousseau e Lemos-Torres.

A invenção do estetoscópio por Laennec em 1816 foi um marco. Antes dele, os sons cardíacos e pulmonares eram estudados através da colocação do ouvido contra o tórax do doente. Em sua principal obra, “De l’auscultation mediate”, Laennec descreveu em detalhes os sons audíveis das doenças torácicas, além de incluir diagramas de sua nova invenção.

O microscópio originou a microbiologia, permitindo a Robert Koch identificar o Mycobacterium tuberculosis, sendo ele o responsável pela primeira vez na história a correlacionar um agente microbiológico a uma doença específica, em 24 de março de 1882. Recebeu o Nobel em 1905 por suas descobertas em relação à tuberculose, somente após 55 nomeações ao prêmio. O surgimento da endoscopia se deu no século XVIII, com os espéculos, mas foram os construídos com fibra óptica, a partir de 1958, que permitiram maior avanço neste campo de diagnóstico.

As tão conhecidas provas funcionais respiratórias originaram-se em 1844, após o cirurgião John Hutchinson desenvolver o espirômetro. Foi ele quem criou o termo Capacidade Vital (CV) que, de tão importante à época, era a CV utilizada na formulação das apólices de seguro de vida. A partir daí uma série de avanços tecnológicos e conhecimentos foram incorporados à pneumologia, com destaques no século XX para Cournand, Richards e Baldwin (classificação das formas de insuficiência pulmonar, 1948), Robert Tiffeneau (relação VEF1/CV, 1949), Leaullen e Fowler (importância do FEF25-75, 1954).

O marco da revolução tecnológica se deu com a descoberta dos Raios-X pelo alemão Roentgen, em 1895, vencedor do primeiro Nobel da história, em Física, em 1901, devido a isso. Mas foi no século XX que a tecnologia médica propriamente dita se desenvolveu. Seguiram-se a ultra-sonografia (1940), cintilografia (1960), tomografia computadorizada (1972), ressonância magnética (1980), tomografia computadorizada de alta resolução (1982) e a tomografia por emissão de pósitrons (1990).

É inegável que os modernos recursos tecnológicos trouxeram maior segurança ao médico para a tomada de decisões importantes, mudando a face da medicina. Também é fácil supor que novas tecnologias devem ser incorporadas ao nosso arsenal diagnóstico, e cada vez mais com maior velocidade, tornando rapidamente obsoletos os métodos diagnósticos que hoje consideramos modernos e avançados.

Nesse momento talvez seja importante lembrar que, frente a isso tudo, não se pode relegar ao segundo plano as antigas e sábias orientações de Hipócrates. Nossos sentidos talvez sejam nossos melhores aliados, e, nosso ouvido, nosso maior instrumento: na maioria das vezes, se ouvirmos o doente, ele nos dirá o diagnóstico.